Veleiros e Navegantes

Charlie Dalin

O homem que venceu, de uma só vez, a mais importante regata mundo e o câncer

Homenagem ao velejador francês, morto aos 42 anos

Um dos melhores navegadores de todos os tempos, Charlie Dalin nos deixou em 11 de junho de 2026, em Quimper, na França, aos 42 anos, vítima de um câncer que o acompanhava havia dois anos e meio. A notícia percorreu o mundo da vela de golpe seco: o homem que, poucos meses antes, havia cruzado a linha de chegada de Les Sables-d’Olonne, vencendo a mais difícil regata de volta ao mundo sem escalas, a Vendée Globe, nos deixara.

Sua imagem, comemorando com um sinalizador marítimo em cada mão, sorridente, exausto e vitorioso, acenando do convés de seu IMOCA, entrou definitivamente para a história. Naquele dia, 14 de janeiro de 2025, a bordo de seu MACIF Santé Prévoyance não estava apenas comemorando o recorde da Vendée Globe. Estava, sem que quase ninguém soubesse, vencendo — por um tempo — a própria doença.

Um garoto de Le Havre e o mar

Nascido em 10 de maio de 1984, em Le Havre, Dalin descobriu a vela aos seis anos, durante uma temporada na Bretanha. A paixão nunca mais o deixou. Mas, ao contrário de muitos velejadores de competição, ele não abriu mão da formação técnica: em 2002 entrou na Universidade de Southampton, de onde saiu, em 2006, com o diploma de engenheiro naval. Um dos seus primeiros trabalhos profissionais foi na equipe de projeto e construção do VO70 Ericsson 4, vencedor da Volvo Ocean Race de 2008-09. Dalin seguiria essa dupla vocação — arquiteto naval e velejador — pelo resto da carreira, acompanhando pessoalmente a concepção e a construção de seus próprios barcos, algo raro entre os grandes nomes da vela oceânica.

Com o Apivia, Dalin foi segundo colocado na Vendée Globe de 2021-22

A escalada: do Figaro ao topo do IMOCA

Sua ascensão começou na classe Figaro Bénéteau, a partir de 2011, no Pôle Finistère Course au Large de Port-la-Forêt. Já na segunda temporada venceu a Transat AG2R La Mondiale ao lado de Gildas Morvan, e conquistou duas vezes o título de Campeão da França Elite de Corrida ao Largo em Solitário (2014 e 2016), somando cinco pódios consecutivos na Solitaire du Figaro.

A transição para os monocascos IMOCA 60 veio a partir de 2015, quando fez dupla com Yann Eliès na Transat Jacques Vabre, terminando em terceiro lugar. Seguiram-se anos de parceria com a Macif e, depois, com a Apivia, com quem disputou a Vendée Globe 2020-2021 — e viveu um dos episódios mais dramáticos e injustos de sua carreira: cruzou a linha em primeiro lugar após 80 dias de mar, apenas para ser rebaixado ao segundo posto depois que Yannick Bestaven recebeu uma bonificação de dez horas por ter ajudado a resgatar outro competidor, Kevin Escoffier, cujo barco se partira ao meio no Oceano Índico. Foi uma decisão esportivamente compreensível e, ao mesmo tempo, cruel para quem havia navegado mais rápido que todos.

Dalin não se deixou abater. Venceu a Transat Jacques Vabre de 2019 (com Paul Meilhat), o Défi Azimut, a Vendée Arctique, a Guyader Bermudes 1000 Race, o Rolex Fastnet Race, foi vice-campeão do Route du Rhum 2022 e conquistou o título do IMOCA Globe Series World Championship. Em 2023, ainda venceu a etapa transatlântica da Ocean Race à frente da equipe 11th Hour Racing, campeã geral daquela edição. Também naquele ano lançou seu novo barco, o MACIF Santé Prévoyance, projetado por Guillaume Verdier — mais uma vez, acompanhando de perto cada etapa da construção.

O diagnóstico escondido do mundo

O livro de Charlie Dalin tornou-se leitura obrigatória para todos amantes do mar

Foi também em 2023, poucos dias antes da Transat Jacques Vabre, que sua vida mudou. Dores abdominais persistentes levaram a exames que revelaram um tumor estromal gastrointestinal (GIST) de cerca de 15 centímetros. “Tive a impressão de levar uma pancada”, contou ele, tempos depois, num relato emocionado. Teve que abandonar a corrida e passou a se tratar no Instituto Gustave-Roussy, em Paris, com imunoterapia. Um médico o encorajou: conhecia atletas de alto rendimento que seguiam competindo sob tratamento semelhante, e via viabilidade em uma nova tentativa na Vendée Globe.

Dalin decidiu não tornar pública a doença. Poucos entes queridos sabiam. Em abril de 2024, ainda inseguro sobre até que ponto o cansaço vinha do tratamento, do tumor ou da falta de treino, venceu mesmo assim a regata The Transat, com 17 horas de vantagem sobre os concorrentes — um sinal de que, apesar de tudo, seguia no topo.

O MACIF Santé Prévoyance foi o último veleiro de Charlie Dalin – com ele venceu a Vendée Globe em 2024

Em novembro de 2024, dias depois de um novo exame confirmar que o tumor não havia avançado, partiu para sua segunda Vendée Globe carregando meses de medicação e um plano rígido para controlar a dor, sozinho, sem qualquer assistência médica a bordo — como determinam as regras de uma regata solitária e sem escalas ao redor do mundo. Foram 64 dias, 19 horas, 22 minutos e 49 segundos de travessia: um novo recorde da prova, quase dez dias mais rápido que a marca anterior, de Armel Le Cléac’h. Em 14 de janeiro de 2025, cruzou a linha de chegada em Les Sables-d’Olonne como o homem mais rápido a já ter dado a volta ao mundo em solitário sem assistência. “Sou o homem mais feliz do mundo”, disse à multidão. “Parece que parti ontem.” Chegou a pensar em revelar ali mesmo o que enfrentara em silêncio durante toda a travessia, mas decidiu que não era o momento.

Só em outubro de 2025, com o lançamento do livro La Force du Destin (Gallimard), Dalin contou publicamente a história do “intruso a bordo”: os quase 50 mil quilômetros navegados com um câncer no corpo, a dor que ele dizia conseguir colocar de lado durante a navegação e que só voltava a sentir em terra, e a determinação de não deixar o diagnóstico decidir por ele o rumo da própria vida.

O reconhecimento e a doença que avançava

O ano de 2025 trouxe também os louros de uma carreira histórica: o título de Velejador do Ano pela Federação Francesa de Vela, o Prêmio Fundação Magnus Olsson por seu impacto extraordinário sobre o esporte, e o título de Chevalier de la Légion d’Honneur. Mas a doença avançava. Em janeiro de 2026, Dalin anunciou que não poderia participar da Route du Rhum: “A vela oceânica solitária está, no momento, proibida para mim”, escreveu, ainda assim manifestando o desejo de acompanhar de perto seu substituto ao leme do MACIF, o britânico Sam Goodchild, e de continuar “escrevendo a história desse barco” — fiel, até o fim, à sua identidade dupla de velejador e construtor.

Morreu poucos meses depois, deixando mulher, Perrine Le Pape, e um filho. “É com profunda tristeza que minha família e eu anunciamos a morte de meu marido, Charlie Dalin, após uma longa doença”, escreveu Perrine em nota à agência AFP. O presidente francês Emmanuel Macron o chamou de “um velejador extraordinário, um exemplo raro de coragem, um farol em mar aberto”. Seu maior rival na última Vendée Globe, Yoann Richomme, escreveu: “Que luta admirável você travou contra essa doença cruel. Fico profundamente impressionado com sua perseverança e seu otimismo até os últimos dias.”

O MACIF Santé Prévoyance foi o barco da vitória na Vendée Globe

O legado

Charlie Dalin não foi apenas um velejador vitorioso — foi, talvez, o mais completo de sua geração: o único a unir, com a mesma excelência, o domínio técnico de quem projeta e constrói os barcos com o instinto de quem os leva, sozinho, ao limite do planeta. Subiu ao topo do pódio da regata mais dura do mundo depois de ter sido injustamente tirado dela quatro anos antes, e o fez carregando, em silêncio, uma batalha que a maioria dos homens não suportaria enfrentar nem em terra firme.

Foi embora jovem, no auge da fama e da forma, deixando a lição — repetida por todos que o conheceram — de que a determinação pode ser mais forte até que a própria doença, mesmo quando, no fim, não basta para vencê-la. O mar francês perdeu um de seus gênios. A vela mundial perdeu um homem que redefiniu o que era possível.