Golden Globe, uma Volta ao Passado

No dia 6 de setembro de 2026, dezesseis velejadores partiram de Les Sables-d’Olonne, na França, para dar a volta ao mundo em solitário, sem escalas e sem qualquer ajuda externa — e, mais notável ainda, sem GPS, sem computadores, sem previsão do tempo eletrônica e sem instrumentos modernos de navegação. É a Golden Globe Race 2026, quarta edição de uma regata que se orgulha de ser, propositalmente, uma máquina do tempo: os velejadores navegam com sextante, bússola, cartas de papel e observações astronômicas, exatamente como se fazia em 1968. Quinze largaram no horário previsto; um deles, o sueco Pär Nyman, precisou voltar ao porto para resolver um problema técnico e partiu novamente dentro do prazo de uma semana permitido pelo regulamento. O percurso, de aproximadamente 30 mil milhas náuticas rumo a leste, contorna os cinco grandes cabos do planeta antes de retornar a Les Sables-d’Olonne, com chegadas previstas entre abril e junho de 2027.

A frota reúne velejadores de onze países — França, Reino Unido, Estados Unidos, Itália, Noruega, Suécia, Canadá, Irlanda, Israel, Turquia e Suíça — e nomes de perfis bem diferentes. Entre os favoritos está o francês Damien Guillou, ex-integrante do circuito olímpico de 49er, veterano do Figaro e ex-preparador de barcos IMOCA, que já esteve na ponta da edição de 2022 antes de uma falha no piloto de vento tirá-lo da disputa; ele venceu o SITraN Challenge, prova de preparação realizada em agosto. O britânico Ertan Beskardes disputa sua terceira Golden Globe, agora a bordo do próprio Rustler 36 batizado Miss Beagle, o mesmo modelo de barco com que Jean-Luc Van Den Heede venceu em 2018 — aliás, o Matmut de Van Den Heede é hoje o Miss Beagle de Beskardes. Também estão na água nomes como o irlandês Pat Lawless, o americano Guy deBoer, os italianos Guido Cantini e Andrea Lodolo, o turco Selim Yalcin, o suíço Etienne Messikommer, a norueguesa Mara Løvenskiold e o americano Gunnar Christensen, entre outros — a maioria velejadores amadores ou semiprofissionais que dedicaram anos de preparação e economias pessoais à aventura.

Um aperto de mão com quase seis décadas de história da Golden Globe. Sir Robin Knox-Johnston — o único a completar a Sunday Times Golden Globe original de 1968-1969 — cumprimenta um dos velejadores da GGR2026 com um aperto de mão e palavras de incentivo antes de deixar o cais em Les Sables-d’Olonne. Crédito: Don McIntyre / GGR2026

Os barcos são o coração do regulamento: só podem competir modelos de produção em fibra de vidro, projetados antes de 1988, fabricados em série de pelo menos vinte unidades, com casco entre 9,75 e 10,97 metros (32 a 36 pés), quilha corrida e leme preso à borda de fuga da quilha — um desenho que privilegia estabilidade direcional e robustez, não velocidade. O Rustler 36 se tornou o modelo emblemático da prova, mas a lista de desenhos aprovados inclui também Westsail 32, Tradewind 35, Saga 34, Vancouver 32 e 34, Biscay 36, Cape Dory 36, Endurance 35, Hans Christian 34, Tashiba 36 e várias outras embarcações clássicas de cruzeiro oceânico. A exigência para entrar também é rigorosa: pelo menos 8.000 milhas náuticas de experiência prévia em mar aberto, mais 2.000 milhas solo em qualquer barco e outras 2.000 milhas solo já a bordo do barco inscrito, além de idade mínima de 18 anos e inscrição por convite, mediante uma taxa de inscrição não reembolsável de 4.000 euros. A comunicação em alto-mar é extremamente limitada — os competidores só podem usar dois telefones satelitais para até quatro mensagens curtas por dia à organização, sem previsão meteorológica nem qualquer orientação externa. Uma novidade de 2026 é a “GGR Live Window”: sete velejadores selecionados transmitem imagens de bordo via satélite em fluxo unidirecional — o público vê e ouve tudo em tempo real, mas o próprio velejador não recebe nenhuma informação de volta, nem mensagens nem previsões. Como resume a organização, “para os velejadores, ainda é 1968; para quem assiste, já é 2026”.

Essa fidelidade ao passado não é acidente: a Golden Globe Race moderna nasceu para reviver, quase à risca, a Sunday Times Golden Globe Race original, disputada entre 1968 e 1969 — a primeira tentativa da história de circum-navegar o globo em solitário, sem escalas e sem assistência. Nove velejadores partiram, em datas diferentes, ao longo de vários meses, disputando dois prêmios: o Troféu Golden Globe para o primeiro a completar a volta, e uma bolsa de 5 mil libras para quem fizesse o percurso mais rápido. Só um deles terminou a prova: o britânico Robin Knox-Johnston, a bordo do pequeno veleiro de madeira Suhaili, que cruzou a linha de chegada em Falmouth depois de 312 dias no mar, vencendo os dois prêmios — e doou o dinheiro do prêmio de velocidade à família de outro competidor, Donald Crowhurst, que havia se envolvido em uma das histórias mais sombrias da vela oceânica: incapaz de completar a volta de verdade, Crowhurst passou meses falsificando seu diário de bordo e sua posição para simular que estava na disputa pela liderança, até que a pressão psicológica o levou ao desaparecimento no mar, num caso até hoje estudado e retratado em livros e filmes. Bernard Moitessier, o francês que navegava na frente da prova a bordo do veleiro de aço Joshua, tampouco chegou a Falmouth — mas por escolha própria: desiludido com o que chamava de mundo civilizado, ele decidiu não retornar depois de contornar o Cabo Horn e seguiu velejando sozinho até o Taiti, comunicando sua decisão por meio de uma mensagem lançada com estilingue para um navio cruzado no caminho. Um quarto nome frequentemente lembrado é o do britânico Nigel Tetley, cujo trimarã Victress afundou a poucos dias da chegada depois que ele forçou a embarcação além do limite, tentando superar o que acreditava ser o tempo (fictício) de Crowhurst.

Skippers da GGR2026 reúnem-se em torno de uma maquete do trimarã Teignmouth Electron, de Donald Crowhurst. A edição de 2026 relembra a história humana da Golden Globe original de 1968–69 — incluindo o trágico desaparecimento de Crowhurst — enquanto nova geração de velejadores irá enfrentar os mesmos oceanos. Crédito: Rob Havill / GGR2026

Foi esse episódio fundador que, décadas depois, inspirou o australiano Don McIntyre a recriar a prova. McIntyre teve seu primeiro contato com esse universo em 1982, quando trabalhava com equipamentos de piloto de vento (Aries) para os competidores do primeiro BOC Challenge Around Alone, durante a escala da regata em Sydney — foi ali que conheceu pessoalmente Robin Knox-Johnston, seu ídolo de infância, e ficou definitivamente fisgado pela vela oceânica solitária. Chegou a se preparar para competir no BOC de 1986, mas não terminou o barco a tempo e acabou atuando como presidente da organização da etapa australiana daquele ano; disputou, então, o BOC Challenge de 1990-91, terminando em segundo lugar na sua classe — uma experiência que ele descreve como um dos pontos altos de sua vida. Ao olhar para trás, porém, McIntyre passou a considerar aquela sua própria edição como a última das “regatas de aventura” genuínas: as edições seguintes da vela oceânica solitária foram se tornando cada vez mais profissionais, caras e voltadas a atletas de elite em barcos extremos, focados exclusivamente em vencer a qualquer custo — um caminho que, segundo ele, afastou o velejador amador comum desse tipo de desafio.

Foi para reverter essa lógica que McIntyre lançou a Golden Globe Race em 2018, no cinquentenário da prova original: uma volta ao mundo deliberadamente sem tecnologia, disputada em barcos de cruzeiro simples e acessíveis, dentro de um orçamento que — segundo a própria organização — pode ficar abaixo de 100 mil euros, incluindo a revenda do barco ao final. A primeira edição reuniu 18 velejadores e foi marcada por dramas reais: apenas cinco terminaram a prova, o indiano Abhilash Tomy foi resgatado no meio do Oceano Índico depois de sofrer graves ferimentas nas costas quando seu barco foi desmastreado, e a britânica Susie Goodall teve seu veleiro capotado e destruído perto do Cabo Horn, sendo salva por um navio cargueiro. O vencedor foi o francês Jean-Luc Van Den Heede, a bordo do Rustler 36 Matmut — o mesmo barco que volta à disputa em 2026, agora batizado Miss Beagle. Na edição seguinte, em 2022, dezesseis velejadores partiram de Les Sables-d’Olonne e a sul-africana Kirsten Neuschäfer fez história ao se tornar a primeira mulher a vencer uma regata de volta ao mundo em solitário — ficou também conhecida por interromper sua própria disputa para resgatar um concorrente, o finlandês Tapio Lehtinen, cujo barco afundara no Oceano Índico. O indiano Abhilash Tomy terminou em segundo lugar, desta vez completando a prova, e o austríaco Michael Guggenberger em terceiro.

Uma tradição da GGR: os comandantes conferem os equipamentos para protegê-los nas condições mais adversas, transformando uma exigência de segurança em momento memorável para o grupo. Crédito: Don McIntyre / GGR2026

FRANÇAIS
Une tradition de la GGR : les combinaisons de survie sont enfilées et les sourires sont au rendez-vous ! Les skippers et l’équipe vérifient cet équipement conçu pour les protéger dans les conditions les plus difficiles en mer, transformant une exigence de sécurité essentielle en un moment collectif mémorable. Crédit : Don McIntyre / GGR2026

Ao longo do caminho, McIntyre também expandiu sua ideia de “vela vintage acessível” para outras frentes: criou a Ocean Globe Race, uma homenagem à Whitbread Round the World Race original de 1973, disputada em equipe e por etapas, também com restrição tecnológica; lançou a Class Globe 5.80, uma classe monotipo de baixíssimo custo, com cascos de madeira compensada construídos pelo próprio dono a partir de plantas vendidas por trezentos euros; e organizou a partir dela a Mini Globe Race. Hoje radicado, em parte, no reino de Tonga — onde é comodoro do Royal Nomuka Yacht Club —, McIntyre segue à frente da organização de todas essas provas através da Ocean Frontiers Pty Ltd e da McIntyre Adventure Ltd, repetindo, edição após edição, a mesma aposta: a de que a aventura oceânica de verdade não precisa de tecnologia de ponta nem de patrocínio milionário para continuar existindo — precisa apenas de alguém disposto a partir sozinho, sem rede de segurança eletrônica, rumo ao horizonte.

Deixe um comentário